Transcrição
(00:00 – 00:18) Gabi: Esta é uma imagem do seu cérebro. E esta é uma imagem do seu cérebro quando você bate o dedo do pé. Mas também é uma imagem do seu cérebro quando você se lembra de alguém que o magoou profundamente. Quando sentimos uma dor emocional, particularmente um ressentimento, nossos cérebros ativam algumas das mesmas áreas que processam a dor física.
(00:19 – 00:51) Como sabemos disso? Em um estudo de 2003, pesquisadores pediram aos participantes que jogassem um jogo virtual de arremesso de bola. O jogo era simples: você jogava uma bola virtual de um jogador para outro. O problema é que os outros “jogadores” eram, na verdade, computadores programados para parar de passar a bola para o participante humano e, eventualmente, excluí-lo do jogo. Quando os participantes começaram a ser excluídos durante o jogo de cyberball, a ressonância magnética funcional mostrou um aumento da atividade em regiões do cérebro que também são ativadas durante a dor física.
(00:52 – 01:02) O estudo do cyberball foi fundamental no campo da neurociência social, nos ajudando a entender por que a rejeição, a solidão ou o ressentimento podem ter efeitos tão fortes sobre nós.
(01:03 – 01:27) É por isso que a falta de perdão, ou o ressentimento, podem ser tão difíceis de administrar. Seu cérebro é projetado para detectar ameaças e evitar danos. Então, quando alguém o machuca — especialmente de forma significativa — uma parte profunda e primitiva do seu cérebro registra isso como uma ameaça ao seu bem-estar. Essa memória é marcada por uma intensidade emocional muito alta — especialmente emoções como medo, raiva e vergonha.
(01:28 – 01:39) Seu corpo e cérebro disparam alarmes para avisar que a pessoa que o machucou pode fazer isso novamente. Não só isso: seu cérebro trabalha duro para reforçar essa memória e preservar essa história.
(01:40 – 02:09) Se a ferida for muito profunda, podemos até começar a construir nosso senso de identidade em torno dessa dor. Então, quando tentamos pensar em perdoar a pessoa que nos machucou, pode parecer que estamos abrindo mão dessa proteção e dessa identidade. Pode parecer que estamos perdendo o controle. Em contraste, o ressentimento e a falta de perdão podem ser poderosos. Cada vez que nos recusamos a perdoar e permanecemos presos a esses sentimentos negativos, é como se estivéssemos fazendo justiça à pessoa que nos machucou. Mas a verdade é que é uma forma de cativeiro emocional.
(02:10 – 02:39) A amígdala (o centro de medo e alarme do cérebro) e o córtex pré-frontal (o centro do raciocínio) frequentemente lutam entre si durante o processo de perdão. (Perdoar parece inseguro porque desliga nosso “alarme de ameaça”, por isso soa artificial. )Mas a cura começa quando decidimos acreditar em uma nova história. Significa abrir mão da ilusão de que sentir dor é o que nos dá superioridade moral e aceitar que a verdadeira cura não virá da punição daqueles que nos machucaram.
(02:40 – 03:01) Pesquisas sugerem que praticar o perdão — mesmo o perdão imaginário — mostra sinais de redução do estresse, níveis mais baixos de cortisol e mudanças positivas na atividade cerebral. O perdão pode reduzir a dor e a pressão arterial, fortalecer nosso sistema imunológico e contribuir para um sono melhor. Portanto, o perdão não é apenas uma virtude moral: é uma mudança fisiológica.
(03:02 – 03:29) Mas e quanto à resposta à ameaça e à prevenção de sofrimento futuro? Como podemos perdoar sem nos expor a mais danos? Bem, aqui está uma das percepções mais notáveis sobre o verdadeiro perdão: perdoar alguém não apaga a memória emocional, mas muda a forma como o cérebro processa essa memória. Se você realmente perdoou alguém, relembrar o evento ainda pode causar tristeza ou desconforto, mas não ativará a mesma atividade cerebral associada à raiva, amargura ou vingança.
(03:30 – 03:47) Também é importante observar que perdão não é o mesmo que confiança. A confiança é conquistada ao longo do tempo e pela experiência de alguém ser confiável. Mas o perdão é algo que podemos escolher — independentemente de a outra pessoa estar ou não aberta ao crescimento, à reconciliação ou à reconstrução da confiança.
(03:48 – 04:09) Então, como perdoamos na prática? Podemos simplesmente nos convencer a perdoar? Se você já tentou, sabe como pode ser difícil. Você sabe que precisa perdoar, mas seu corpo e suas emoções se inflamam toda vez que você pensa na pessoa que o machucou. Bem, há evidências científicas e psicológicas crescentes apoiando a ideia de que o perdão deve ir além de uma decisão racional.
(04:10 – 04:32) Memórias de sofrimento não são apenas ideias armazenadas; elas carregam consigo intensas respostas emocionais e até físicas. O Dr. Robert Enright é conhecido como “o pai da pesquisa sobre perdão”. No cerne de seus estudos está esta verdade: o perdão não é completo até que a pessoa passe emocionalmente do ressentimento e da dor para a empatia, a compaixão e a liberação emocional.
(04:33 – 04:49) Então, o que fazemos quando nossa mente nos diz que devemos perdoar, mas nosso coração e nossas emoções gritam que não podemos? Simplesmente dizer “Eu te perdoo” ou decidir perdoar não é suficiente. Na verdade, Perdoar de verdade exige lidar profundamente com as emoções”
(04:50 – 05:11) A neurociência e a psicologia estão começando a validar o que frases como “perdão do coração” expressam intuitivamente há séculos: que o verdadeiro perdão envolve não apenas nossos pensamentos, mas também nossas emoções, identidade, relacionamentos e até mesmo nossos corpos. E essa sabedoria ancestral também nos convida a refletir sobre as implicações espirituais do perdão.
(05:12 – 05:20) A ciência está apenas começando a alcançar essa sabedoria tão antiga. E se o perdão pode reconectar o cérebro, o que mais ele pode fazer?